martes, 24 de junio de 2014

Contracondutas da Aids

"Nós, da Contracondutas da Aids, traduzimos a entrevista de Leonor Silvestri ao Centro de Estudos Queer Latino Americano. Gostaríamos de nos desculpar por qualquer erro eventual na tradução, pois não somos fluentes em espanhol e fizemos o melhor que pudemos. Quanto ao teor político da entrevista, fazemos eco, especialmente no que diz respeito à crítica acadêmica e esse lugar na margem das margens, "dissidência da dissidência".
Com perguntas provocadoras e respostas desafiantes, Leo nos relata o seguinte:
1 – Por que você diz que foi assignada biopoliticamente ao sexo “mulher”?
Não digo isso, quem diz é o estado Argentino que impôs com o consentimento dos meus pais e da classe médica essa definição no meu DNI [RG]. Teríamos que pensar por que é necessário colocar uma limitação tão grande quanto a de uma prescrição genética em um documento público, mas também a que interesses servem ter um documento de identidade emitido pelo Estado e que é utilizado para coisas como cruzar ou não fronteiras. Quero dizer que não deveriam existir nem DNIs nem fronteiras e que supostamente, sem elas, não haveria também assignações biopolíticas de gênero, entre outras coisas horrendas que deixariam de existir. Denomino-me assim porque gosto de deixar claro que “ser mulher” não apenas é algo que alguém escolhe, pelo menos não no momento do nascimento, que não tem nada a ver com a natureza e, sim, com uma aliança médica, familiar, estatal, legal e, provavelmente, também psi.
2 – E como é ser uma ativista do gênero anarquista?
Suponho que, à medida que o tempo passa, me sinto mais como umx franco-atiradorx ou umx terroristx, alguém como o Coringa do Batman do Cavaleiro da Noite, e não como umx ativistx. Já não sei ao certo o que quer dizer “ativista”, ou se tem importância sê-lo, vejo gente que se designa assim e que é bastante repugnante. Quanto a ser anarquista, bem, é uma identidade obsoleta, já que não causamos medo a ninguém, ao menos aqui em Buenos Aires. Apesar disso, interessa-me contagiar com a alegria da anarquia, com o anticapitalismo e com a capacidade de estar contra o sistema sem ter que morrer na tentativa. Além disso, sua teoria econômico-política, tão pouco estudada por quem fala de revolução, como a própria Beatriz Preciado, é formidavelmente bela, necessária e útil. Entusiasmar formas de resistência ativa e de vida que não impliquem a inclusão, mas, ao contrário, a fuga. A anarquia é inevitável, além de estar por todas as partes. Dever-se-ia tirar do currículo isso de ativista de gênero anarquista, não?
3 – Você estudou na UBA [Universidade de Bueno Aires], porque decidiu não se formar e com isso continuar seus estudos em poesia? Como é e do que se trata sua poesia?
Não sei se decidi isso ou se decidiram por mim. Simplesmente não pude, e logo tive outros interesses, não me pareceu uma coisa relevante com que gastar o meu tempo. De qualquer forma, há que se dizer que devo a entrega de uma monografia, ou seja, tenho 99% do curso, seria injusto dizer que não terminei, eu gostaria de ter percebido antes e realmente não fazer nenhum curso superior, não estudar na universidade, e que não notassem que não o fiz. Lamento muito que me liguem ao pensamento intelectual, que acreditem que eu seja uma acadêmica. Dei-me conta tarde do pouco valor que isso tem e de quão pouco interessante é o que se produz na academia, especialmente em Buenos Aires. Se voltasse a nascer, seria boxeadora de tempo integral, ou me dedicaria à música ou ao trabalho sexual, para fazer muito dinheiro porque fui muito linda e feminina quando jovem e não aproveitei isso e o desperdicei sem fazer grande caso.
Tampouco penso em minha poesia, é algo que abandonei faz tempo. Continua em mim. Mas em forma de ensaio poético. Não me sinto mais como uma poetisa, como se fosse algo a que me dedicasse durante as 24 horas de cada um dos 7 dias da semana. Como tantas outras coisas… Gosto de ter várias vidas em uma. E como já escrevi, bem, está tudo disponível na web e pode ser visto lá, tranquilamente, que o julgue quem se interessar em lê-lo. A poesia como gênero representa para mim o mesmo que o movimento LGBT: venho daí, mas é o dispositivo privilegiado por onde se reterritorializa o pior da subjetividade complacente, medíocre e pequeno-burguesa. Não há nada aí de valor. Não mais.
4 – Você é uma referência aqui na Argentina da Teoria Queer, como você vive esta filosofia e a “performance”? Tem algumas críticas a ela ou alguma de suas correntes?
Tento não ser uma referência em nada. Lamento que as pessoas tenham uma ideia formada de mim a partir de textos ou fofocas que algumas pessoas rancorosas lançam no espaço virtual. Eu gostaria que se afetassem com a produção desejante textual-rizomática das ações que temos realizado. No que me diz respeito, como corporalidade, prefiro ser uma forma de vida possível, uma possibilidade, a dissidência da dissidência, um caminho à margem do mundo, como alguém que disse uma vez, com seus grandes desacertos, fazendo como todxs o que podemos, e fracassando, se tivermos sorte! A verdade é que me associaram, com justa e merecida razão, a esse balaio de gatos chamado “teoria queer”, mas já faz um bom tempo que sou bastante crítica disso que aqui na sudakalandia [gíria para América Latina] se chama queer, porque me parece que isso tem servido de álibi para que muitos heterossexuais e heteroflexíveis falem de sexualidades inabordáveis, inabarcáveis e inassimiláveis sem pôr o corpo, ou pondo-o muito pouco – até onde não os faça perder nem o trabalho nem o amor de suas mães –, coisa que não acontecia durante os velhos e queridos estudos gays e lésbicos: se aquilo lhe interessava, você era viado e terias que assumir os riscos por isso. Hoje se pode ir a um festival pós-pornô organizado por uma jovem loira heterossexual e seu namorado, e isso não causa nenhum ressentimento a ninguém, parece bom para a maioria das pessoas, esse tipo de convivência pacífica ecumênica com os que encarnam e detêm os privilégios de ordens maiores. Parece que o queer aqui é um lugar de convivência passiva e acrítica, à margem daquilo que também produz uma forma de aberração do tipo “como os gêneros são uma construção, então não existem e, como não existem, então pode vir um cara de 1,80 e pegar sua namorada. E isso tem acontecido em espaços libertários, supostamente libertários. A entrada do queer na sudakalandia aconteceu sem o movimento de lésbicas loucas, drogadas, esquizo e bichas pintosas da Espanha, que por sua vez já tinham mastigado o feminismo e, portanto, podiam mudar para um transfeminismo, logo as pessoas aqui não apenas não entendem nada de solidariedade, mas, sim, entendem bastante de bolsas e subsídios de arte. Para o cúmulo dos males, pensam que uma ficção somático-política, um aparato de captura como o gênero é uma abstração – e até onde me consta não há nada mais real, tangível e material que uma ficção. O queer em Buenos Aires é pouco menos que um espaço para medíocres aspirantes a artistas do IUNA, muitos deles financiados de outras terras por seus pais para que tenham um título universitário na Paris latina. Remeto-me às evidências. Dentre tantas outras falhas que hoje apresenta. Um pouco como ocorreu com os estudos de gênero e o feminismo. Não é o mesmo fazer um curso de “gênero” e se afirmar feminista.
Quanto à minha vida, bem, suponho que existo como uma dessas pessoas que ainda pratica uma vida queer, no sentido em que queer tem sido um fazer e não um ser, um não fazer, um deixar-se cair, um dizer NÃO, um opt out, mas esse fazer tem tido mais a ver com o que não se pode ou pôde que com o que se pode.O que quero dizer é que, se eu pudesse ter sido normal, talvez tê-lo-ia sido, mas nunca consegui ter namorado, nem um trabalho, nem ser uma boa estudante, nem nenhuma dessas coisas da normalidade. O queer tem sido um não ser. Sou uma fracassada da heterossexualidade e seus mandamentos. Os acontecimentos o escolhem, você não os escolhe. Acontecem coisas, e sua vida se transforma para jamais ser a mesma novamente. Por exemplo, quando no grupo de estudos da UBA em que eu tentava terminar a graduação e ser uma perfeita serva da chefa do cátedra na qual eu estava matriculada se me disse categoricamente que eu tinha de escolher entre minha visibilidade lésbica e meu trabalho em poesia em Brandon Gay Day e o grupo de estudos. Bem, escolhi uma coisa e não outra. Não pensei muito, me deu raiva terem me dito isso e joguei tudo fora em um rompante de loucura. Ainda bem que assim procedi! O mesmo com o trabalho: tentei ser secretária e consegui durante seis meses, enlouqueci, joguei um cinzeiro no chefe de recursos humanos e quase matei todos meus companheiros de trabalho. Simplesmente não estou psiquicamente preparada para trabalhar mais de seis horas diárias com alguém acima de mim. A sexualidade e os afetos são a mesma coisa. A verdade é que não consigo ser normal. Portanto, deixei de tentar. E agora vai ser melhor, ainda que às vezes eu tenha que pedir dinheiro.
5 – O que é o coletivo Ludditas Sexxxuales? O que você realiza ou o que realizam lá?
Não sei o que é, sei como funciona: uma plataforma de pensamento e ação, que vêm a ser o mesmo, que durante quatro anos e com diferentes pessoas participando e tomando parte fizeram rádio, oficinas de todo o tipo (experimentação e desprogramação sexual, autodefesa, teoria e pensamento) em toda a América do Sul, performance, ações diretas, fanzines e um livro que a seu modo narra essas experiências. Felizmente, não existimos mais que na lembrança, na eternidade e nas possibilidades de continuar nos invocando como um conceito, a final de contas o luddismo sexxxual, mais que a marca de um coletivo, é um conceito, uma forma de pensar a si mesmo e de viver em um mundo: se o desejo não é natural, nem pré-consciente, nem espontâneo, mas a produção de uma fábrica solidária com o heterocapitalismo, convém ter um devir luddita – como xs destruidorxs de máquinas inglesas de 1800 – e romper a fábrica de produção dos desejos da heteronormalidade que habita em todo coração não heterossexual. Destruir as máquinas da fabricação dos gêneros e assim engendrar uma contra produtividade do prazer-saber, a partir do desejo como força criadora e produtiva, a partir de um prazer reflexivo que não reorganize e reterritorialize a ontologia da função corporal da biopolítica, mas que exponha uma excitação permanente que nos faça sair da cadeia produtora-reprodutora (quer se chamem filhxs, práticas, relações, etc.), sempre sabendo que não há sexualidades puras nem contrassexualidades puras – mas, sim, incômodo, resistência e fuga, em uma geografia que não apenas não é menor, mas tampouco inominável, que não é natural nem meramente inconsciente ou pré-consciente, mas um dispositivo através do qual emerge o poder com grande potência em seus estados mais primariamente naturalizados. Daí a necessidade de uma ação direta (uma insurgência, divergência, subversão) sexual, sexualizando a totalidade da superfície do corpo, fetichizando tudo, e desidentificando os órgãos reprodutores como os órgãos sexuais e o casal como a zona privilegiada para o velho conceito do anarquista Émile Armand, a camaradaria amorosa – que também tem que ser lexicalizado contra o regime generalizante heterossexual da ausência e da desafetação.
6 – Existem muitas pessoas “queers” que também são vegetarianas como no seu caso; você acredita que é uma opção meramente pessoal ou que existe algum vínculo entre esses modos de vida ou as concepções filosóficas?
Sou antiespecista, que não é simplesmente uma forma de comer. É uma forma de viver não sendo antropocêntrica nem humanista, pensando o humanismo como esse terror de soberanias submissas de qual nos falava Foucault na Microfísica do poder: “Entendo por
‘humanismo’ o conjunto de discursos mediante os quais se diz ao homem ocidental ‘ainda que não exerças o poder, podes ser soberano'. Ainda mais, 'quanto mais renuncias a exercer o poder e quando mais submisso estiveres ao que se te impõe, tanto mais soberano serás'. O humanismo é aquilo que inventou passo a passo estas soberanias de submissão que são a alma (soberana sobre o corpo, submissa a Deus), o indivíduo (soberano titular de seus direitos, submisso às leis da natureza ou às regras da sociedade), a consciência (soberana na ordem do juízo, submissa à ordem da verdade), a liberdade fundamental (interiormente soberana, exteriormente consentidora e 'adaptada ao seu destino'). Em suma, o humanismo é tudo aquilo por meio de que se tem obstruído o desejo de poder no Ocidente – proibido querer o poder, excluída a possibilidade de tomá-lo. No coração do humanismo está a teoria do sujeito (no duplo sentido do termo). Por isso, o Ocidente rejeita com tanta crueldade tudo o que possa sacudir esse sistema” . Quando puder ser vegetariana, Sê-lo-ei. Sempre que pude ser vegana, fui. Agora tenho, por motivos de saúde, que me sujeitar a um devir gato. Isto é, sem consumir alguns produtos de origem animal minha vida fica em perigo, porque sou portadora de uma doença autoimune chamada Crohn. Suponho que muita gente que queira viver coerentemente o antissistema compra seu kit: tem Linux, é vegana, vive em um okupa ou em uma comuna, não se depila, usa remendos, é poliamorosx, vai a orgias, não trabalha, etc. Insisto: como não acredito nas pessoas queer, mas sim nas sexualidades inassimiláveis e nas fracassadas da heterossexualidade como regime político, sei que as coisas são ainda mais complexas que comprar o kit do perfeito antissistema queer hiper-coerente e reterritorializador das identidades moralizantes. Pessoalmente me sinto mais próxima dos animais que dos humanos e creio na redução de males, tudo tem crueldade. Não obstante, é necessário fugir da ficção antropocêntrica que tanto mal tem feito ao mundo e a tudo o que nele habita e deixar de pensar que o ser humano e seus filhinhxs, que as mãe e seus ventres, não são a coisa mais valiosa deste planeta e que é revolucionário. Se isso tem relação direta ou não com comer animais, suponho que cada situação deverá ser avaliada em si mesma por quem a tiver que viver. Suponho que um índio tupi no Brasil tem muito menos impacto sobre o meio ambiente que qualquer vegano prototípico de feira de produtos sem crueldade que acredita ser limpo e sem mácula. E suponho que um inuíte é tão animal, digo-o no melhor sentido da palavra, para fazer parte da cadeia alimentar que inclui a orca e a foca, e que se não se alimentasse de peixe provavelmente não teria o que comer e morreria. Mas esse argumento serve para que os açougueiros continuem industrializando a tortura animal e os ostentadores de privilégios não modifiquem nada. Por outro lado, Fazer os veganos pensarem é impossível, porque em sua imensa maioria são policiais encobertas, salvo honrosas exceções, e já se sabe que as policiais não pensam.
7 – No seu libro “Ética amatória do desejo libertário” você faz uma forte crítica ao romantismo e ao amor burguês e propõe o que chama de “afetos livres e alegres”. Qual é o fundamento dessa crítica e o que é isso que você oferece como alternativa?
Se fosse meu livro, estaria assinado por mim, não? Esse é o primeiro erro. Não tem mina assinatura, portanto não é meu livro no sentido de um autor. O livro faz uma forte crítica ao amor, burguês ou não. Como dizia Kate Millet: o amor é opio das mulheres. Sua pergunta supõe explicar o livro inteiro em uma resposta. Prefiro remeter-lhes à leitura:
http://eticaamatoriadeldeseolibertario.blogspot.com
Qualquer umx sempre desejaria que lhe perguntassem não tanto o que diz o livro, e portanto ter que explicá-lo, mas, sim, algum ponto sobre o livro. Ou uma crítica ou observação. De qualquer forma, acredito que o livro pensa o Amor como um amo a quem se obedece, especialmente os corpos biopoliticamente assignados como “mulher”; o amor e a “mulher” como constructos ou artefatos políticos solidários com o heterocapitalismo global integrado, que permite um controle mais insidioso e efetivo dos corpos. Por isso, alguns corpos afetados mutuamente podem sair do circuito da semiótica amatórica romântica e devir afins: Somos muito mais livres do que se sente, do que se aceita como evidência. Uma ética amatória do desejo libertário é um meio para adquirir uma posição na guerra em curso, guerra contra a heteronorma, contra a propriedade privada, contra o “qualquerismo” que entende a liberdade como “todos fazemos o que nos canta o cu e os outros que nos aturem”, contra o heterocapitalismo, contra a tirania do Eu – o indivíduo – e demais lengalengas da biopolítica e dos pornopoderes. Uma ética amatória do desejo libertário é uma maneira de amar a manada, de encontrar a solidão sem ficar ilhadx. Uma ética amatória do desejo libertário é um chamamento, está destinada àquelxs ainda podem ouvi-lo. Ou seja, não é para todo mundo.
8 – Podemos falar com base no seu pensamento em uma “escrita feminista”?
Não sei bem a que se referem com “meu pensamento”. Sinto-me feminista, mesmo que isso incomode as feministas, e pior para elas que assim seja. E sinto o feminismo como uma ética da existência contra a dominação, como a anarquia, que permite a possibilidade de devir outro pertencente às ordens menores: quer seja mulher, cyborg ou animal. Sem o feminismo não podemos nem preparar uma salada, nem jogar cartas. Também acredito que há feministas que escrevem, mas não sei se uma escrita feminista. Quanto à escrita, penso que há escritas potentes e talentosas e escritas medíocres. Qualquer coisa, literalmente qualquer coisa, pode produzir um acontecimento, desde a leitura de Corín Tellado ou de Clarise Lispector. Mas prefiro mil vezes ler A cidade e os cachorros de alguém tão asqueroso como Mario Vargas Losa a ler as porcarias autobiográficas e mal escritas que ferem meu sentido de prazer e de estética de algumas lesbo-feministas sem talento, nem autocríticas, nem estimulantes, para a escrita. Há uma razão para eu gostar dos clássicos e para ter estudado Gayo Valerio Catulo, prefiro um machista que escreva bem a uma boa feminista bem-pensante que faz rabiscos sobre uma folha. O tempo nos é ilimitado, não podemos perdê-lo em conversa fiada. O feminismo tem que seguir trabalhando para criar uma filosofia que possa disputar espaços com a filosofia antropocêntrica, hegemonicamente masculina e varonil prototípica do Ocidente; essa que diz o “homem” e pensa que somos todas idiotas e não percebemos que não só não se refere às mulheres, como a nenhuma outra corporalidade que não seja um homem branco, heterossexual e ocidental. O feminismo tem que seguir se esforçando com o melhor de si para abandonar a queixa, a vitimização, a denúncia como modus operandi ou metiê privilegiado de seus estudos culturais, que agora parece que são paupérrimos (perdemos até mesmo a capacidade de panfletagem que outrora tínhamos), e passar a ser a filosofia com maiúsculas. E de um tempo para cá, está conseguindo, mas o feminismo é relativamente jovem, comparado a outras artes. Levará tempo, um tempo que se conseguiu com algumas de suas autoras de ficção, a ficção feita por feministas, essa sim está à altura da escrita dos homens que escrevem bem.
9 – O que você pode nos dizer do seu encontro com Judit Butler? Em que você coincide com ela? Há algo em vocês discordam?
Butler foi um trabalho para Clarín, quando era jornalista, simplesmente isso, um bom trabalho de que disfrutei muitíssimo. Posso dizer coisas pessoais, que é muito atraente, e que foi difícil fazer a entrevista porque eu gostaria de tê-la convidado para sair. Não coincido em quase nada com Butler, não é das pensadoras que mais me interessam, certamente muito hegeliana e marxista, excessivamente para o que o meu estômago pode tolerar, e me parece brutalmente ignorante como teórica política por falta de leituras fora da dimensão marxista, ou mesmo que como pós-estruturalista está repleta de falhas. Há quem a acuse de skinneriana condutivista, e acredito que tem um ponto aí, no qual não me detenho a pensar porque, como diz Deleuze, não há que perder um segundo criticando, só se dedique xs autorxs de que mais gostar. De qualquer forma, parece-me uma autora essencial, não lê-la é um erro fatal, a representante mais popular e midiática do que eu dizia anteriormente, de uma filosofia feminista em pé de igualdade com qualquer filosofia criada por um homem, seja Hegel ou Platão. Continuo lendo especialmente sua teoria da performatividade que acredito que abriu caminho para pensar não ontologicamente os gêneros, e me interessa particularmente sua leitura de Beauvoir e do corpo como situação em eu corte mais trans.
10 – Gostaríamos que você falasse do seu último libro, “Foucault para encapuchadas”; do que se trata? A quem está dirigido? O que traz de novo à sua trajetória como ensaísta?
Este livro, todos os livros, são escritos por uma coletividade. A coletividade deste livro em particular, de todos os nossos livros em particular, poderia se chamar “Ludditas Sexxxuales”, mas desta vez se chama “Manada de Lobxs”. Devir lobxs, a puta, a puta, o cachorro antes de ser cachorro, antes dos humanos, da sua domesticação. E ainda que pareça um livro, todos os nossos livros – à medida que os livros vinham a modificar as imagens do mundo e criam novos outros mundos – se trata mais de um convite a uma festa, uma linha de fuga da fuga do controle e do disciplinamento entristecedor heterofacista que nos coopta com esses desejos de ser alguém na vida, de reconhecimento, de transcendência, de prestigio, de ter um nome: das famas, a única que nos interessa é a má. Produzimos aqui, mediante esta escrita, uma forma de fazer e de nos desfazermos. Tudo o que temos criado é o processo de agentes coletivos de enunciação como um campo de intensidade contra a identidade relacionada ao reconhecimento, ao narcisismo, à reterritorialização edipizante das matrizes heteronormativas mais coercitivas. É necessário romper com as máquinas de produção de pessoas individualizadas e com a diferença binária de sexos para poder viver um processo de singularização, ou seja, a reapropiação não submissa da subjetividade.
(Des)afortunadamente, muitas das mãos que compuseram essas peças hoje talvez se encontrem tocando as teclas e as partituras das instituições e/ou toadas dos instituídos, incapazes de encarnar em seu presente aquilo que se escreveu, cheias de ressentimento, desafeto, de medos, de impotências. Curadores, comissárias de arte, artistas, hippies, invejosas, licenciadas, poetas… Morreram para nós, sem nenhuma nostalgia. O único que não muda é a mudança, talvez voltemos a nos encontrar, e talvez seja como inimigas, o qual seria mais digno que a ausência de desafetos de sua reterritorialização humana. Gostaríamos de poder lhes dizer também que quem se põe em fuga sabe e tem aonde chegar para não se extraviar ou se ser capturado nas redes do poder ao longo do caminho… mas não seria honesto.
De tudo isso falam essas páginas, de nossos devires, os que foram, os que são, os que estão sendo, não podemos senão dizer-lhes que, como vocês, não somos nada, nada mais que um hic et nunc que luta – e muitas vezes acerta – em não se deixar apertar, nem ser pego, nem capturar pelas diferentes máquinas da heterossexualidade como regime político. Portanto, as verdades das potências dos nossos corpos incrementando-se, já mesmo todas juntas, todas as de que sejam capazes… Desertando, dirigindo-nos ao deserto, onde cresce a vitalidade, encontrando-nos com vocês.
11 – Finalmente, você pensa que uma Teoria Queer tem uma função social, uma “missão” se se você preferir, ou existe somente para fornecer um suporte à própria filosofia de vida de cada pessoa ativista “queer”?
“Sou o cachorro que corre dos carros, não tenho plano algum”, diz o Coringa no Cavalheiro da noite. Oxalá seja o que significa queer, não ter nenhuma missão nem nenhum telos. Prefiro viver no presente, o futuro tem a cara de um bebê de quem se teria que cuidar. E nessa vigília protetora do bebezinho chamado Missão Futuro, como diz Lee Edelman, fazem das fracassadas da heterossexualidade o branco de controle, patologização e perseguição da heterossexualidade como regime político. Essa é a cara do espanto para todxs xs que habitamos as fronteiras. Há que sair das teleologias e há que parar de bancar Cristo redentor e salvador para devir manada

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