lunes, 5 de agosto de 2013

Rash- SP + Luddismo Sexxxual

SOBRE A ATIVIDADE DE 6 DE FEVEREIRO E OUTRAS COISAS MAIS

 http://rashsp.noblogs.org/post/2013/04/02/sobre-a-atividade-de-6-de-fevereiro-e-outras-coisas-mais/

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Nunca um evento organizado por nosso coletivo despertou tantas paixões como este que deu início às nossas atividades públicas de 2013. Desde que começamos a divulgar a discussão do dia 6 de fevereiro sobre o Luddismo Sexxxual, foram frequentes as manifestações de ira vindas não só da pilantrada nazifascista como também de devotos das seitas anarco-clichês, que nos amam tanto quanto os pilantras. Isso nos da muita satisfação, pois demonstra que nossos esforços para estabelecer uma rede de alianças improváveis não só estão corretos, como são urgentes e necessários para a guerra em curso.
ALIANÇAS IMPROVÁVEIS TRAZEM CONSEQUÊNCIAS IMPROVÁVEIS
A ideia de ampliar nossos contatos para além do campo do rolê punk-skin, no início, tinha o objetivo prático de somar forças na luta contra as quadrilhas nazifascistas em São Paulo1. Esta primeira fase, que tornou-se pública com nossa participação na Marcha Contra a Homofobia do início de 2011, teve seu ponto alto na reunião que realizamos em abril daquele ano, na qual pela primeira vez juntamos diversos grupos de punks e skins antifascistas, ativistas feministas e dissidentes sexuais para discutir estratégias de resistência à violência nazifascista que naqueles dias começava a se tornar frequente nas ruas da cidade.
Essa aproximação com grupos e pessoas que não pertencem diretamente ao universo do rolê contribuiu para ampliar nossa compreensão da realidade, confirmando algumas ideias que há tempos rondavam nossas cabeças. As principais delas:
  • ao contrário do que a polícia e a mídia sensacionalista que lhe faz eco querem fazer crer, os membros das quadrilhas nazifascistas não são “monstros” que na sombra da noite saem dos esgotos onde vivem para atacar suas vítimas. Na verdade, são exatamente o oposto disso: “pessoas normais”, que trabalham, estudam, têm família, se relacionam com pessoas da sociedade, amigos e colegas e, aos domingos, vão à igreja e almoçam na casa da avó. Compartilham dos mesmos valores racistas, machistas e homofóbicos que o delegado, o apresentador de programas policiais da TV, o humorista “politicamente incorreto” ou o pastor pentecostal e levam às últimas consequências a defesa desses valores, agindo como tropa auxiliar da polícia2;
  • declarar-se antifascista e trocar porrada com quadrilheiros nazis nas ruas não nos liberta, como num passe de mágica, desses valores e práticas que, na verdade, são os de nossos inimigos. Fascismo e Antifascismo não são dois times de futebol, suas diferenças não se limitam à “cor da camisa” e só seremos coerentes se combatermos também as atitudes reacionárias presentes em nosso próprio movimento.
A discussão sobre o feminismo que realizamos em conjunto com x coletivx jubiladxs, em novembro de 2012, foi um primeiro passo nesta luta contra o “nosso próprio fascismo”. Naquela atividade se evidenciou o quanto a cena antifa punk e skin é machista e sexista, e como os espaços de ativismo libertário em geral não são lugares seguros para as mulheres. No final, nos ficou claro que só conseguiremos aprofundar a discussão e definir estratégias para o combate direto a esse problema gravíssimo se pararmos de repetir os lugares comuns bonitinhos “contra os preconceitos” e metermos o dedo na ferida, caso contrário apenas cobriremos a sujeira protofascista com um verniz “anti-machista”.
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Coluna Negra na Marcha contra a Mídia Machista em SP – 2012
Apesar das palavras de ordem contra a homofobia, piadas e comentários homofóbicos também são constantes na cena e esta nos parecia uma questão que necessitava ser discutida urgentemente3. Por outro lado, o nosso coletivo tem se posicionado de forma bastante crítica em relação ao mainstream LGBT de São Paulo e seu empenho em se integrar à barbárie capitalista – um empenho que se reflete em situações bizarras como as homenagens ao ex-prefeito Gilberto Kassab e ao star da direita pop Marcelo Tas em edições passadas da Parada LGBT de São Paulo. Precisávamos de alguém mais próximo de nossa visão antissistema para nos auxiliar na discussão sobre homofobia e sexualidades heterodissidentes e através de umx velhx amigx de nosso coletivo chegamos a Leonor Silvestri, então de passagem pelo Brasil.
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Luddismo Sexxxual nas paredes de Buenos Aires
Leonor aceitou o convite de pronto, ainda que aparentemente seus contatos aqui fossem mais próximos das anarkosseitas clichês que tanto nos “adoram” e muito provavelmente desaprovaram esse seu contato conosco. Havia um clima de apreensão no ar. O evento a princípio seria numa casa autogestionada, mas para facilitar o acesso dxs participantes acabou se realizando num velho edifício da região central, um símbolo histórico do poder em São Paulo e que de cara desagradou bastante Leonor4.
Muitas pessoas de fora do rolê confirmaram presença mas não apareceram e no final a grande maioria dos participantes era da cena rueira, o que nos deu muita satisfação, uma vez que a atividade havia sido pensada a partir dos problemas detectados no interior do movimento. Nossa ideia era que fossem abordadas questões como feminismo, teoria e ativismo queer e luta antissistema e então, como fizemos na atividade de novembro do ano passado, trazer essas questões para dentro da nossa cena.
O evento teve inicio por volta das 20h, num auditório grande com um “palco” para xs palestrantes e, num nível mais baixo ao do palco, cadeiras para os ouvintes ou aprendizes, estrutura que Leonor considerou abominável, sugerindo então que todxs ali sentassem no chão em círculo, quebrando qualquer hierarquia entre a “palestrante” e as demais pessoas presentes. O círculo sugerido acabou não se formando, em parte porque o piso do auditório não era plano, mas em degraus e também porque xs rueirxs somos incontroláveis e cada umx se acomodou como bem entendeu, no chão ou nas cadeiras, todxs ansiosxs para ouvir la luddita.
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TERAPIA DE CHOQUE
Ludditas Sexxxuales foi um grupo de afinidade que existiu há um tempo. O nome homenageia os ludditas ingleses que destruíam as máquinas opressoras das fábricas do início do século XIX e transporta esse espírito ao conceito de inconsciente como uma fábrica produtora de desejos de Deleuze e Guattari. As ludditas sexxxuais, então, seriam destruidoras dos desejos impostos pela ditadura heterocapitalista. Leo Silvestri apresentou o livro mais recente das Ludditas Sexxxuales: Ética amatória del deseo libertario y las afetaciones libres y alegres, que nasceu da constatação de que praticamente tudo o que foi pensado em matéria de novas formas de relações afetivas pelxs libertárixs e revolucionárixs dos tempos heroicos teve como matéria-prima as relações heterossexuais. O livro pretende contribuir para a desconstrução do amor romântico, um dos mais eficazes instrumentos de controle do que as Ludditas Sexxxuales denominaram “Regime Heterocapitalista Contemporâneo Global Integrado e Cognitivo”. A conversa iniciou-se em torno desses temas.
Leo não tem papas na língua e sua mensagem é clara: o capitalismo e a heteronorma devem ser destruídos, de uma vez por todas, agora e sua receita para isso é gasolina + fogo. Não há reforma, não há lutas por direitos civis possíveis neste sistema que apodrece mas nunca desmorona. Chocou os antissistema gay-friendly ao dizer que não gosta de héteros e nunca vai colar em suas festas. Aos heterodissidentes que se queixaram de discriminação nas entrevistas de emprego, por exemplo, disparou: “O que vocês ainda esperam dos patrões? Criem suas próprias cooperativas de trabalho!”.
Queríamos saber o que é queer, teoria e ativismo. É algo que não se fala nem se faz por aqui, a não ser, talvez, por alguns casos isolados. Não vamos e não queremos nos aliar com grupos como a Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, uma organização elitista que não pensa duas vezes antes de bajular o poder ou chamar a polícia militar para expulsar seus desafetos políticos da marcha. Queríamos conhecer o pensamento e a prática heterodissidentes mais radicais, que não têm por objetivo principal garantir a participação plena na barbárie capitalista. Leo disse que tem muitas críticas à teoria queer tal como está sendo feita atualmente, mas não gosta de tratar dessas questões em ambientes predominantemente heteronormais, como era, segundo ela, o caso de nossa atividade. Preferia falar sobre a guerra contra o heterocapitalismo.
Leo Silvestri sabe latim, filosofia e kick boxing e – o mais importante – transforma esse conhecimento em munição contra o inimigo. Um aspecto importante de sua fala, e que ficou como pano de fundo de sua intervenção, é que não se deve ter piedade na hora de identificar e destruir os mecanismos de controle do sistema presentes em nós mesmos e que alimentamos e replicamos no dia a dia. E talvez, como dito no início deste texto, o ponto crucial é a ruptura individual com esses mecanismos que são considerados “naturais” nesta sociedade (“colocar o dedo na ferida”). Seríamos hipócritas se dissermos que estamos livres disto, pelo contrário, a ideia talvez seja ao menos admitirmos que estamos imersos na dita sociedade de controle e que replicamos no dia a dia tal estrutura.
A fala de Leonor incomoda, porque nos faz perceber que alimentamos o sistema no nosso dia a dia, sem que gente se dê conta. Identificar a hipocrisia nossa de cada dia é um ato de coragem e de autoanálise árduo e, talvez, o primeiro passo para alterarmos o percurso de nossos coletivos no questionamento a este sistema falido.
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A RASH-SP é um coletivo heterogêneo, não considera as práticas sexuais de seus participantes um fator determinante para nossa organização – heteros, homos, bi, trans, inter… todxs são bem-vindxs, desde que aceitem os Pontos de Unidade da RASH United. No entanto, reconhecemos que, apesar do tradicional discurso anti-homofóbico, sempre compartilhamos de uma visão heteronormalizante do mundo. A ideia da heterossexualidade como um regime político ditatorial ainda é algo novo para nós mas, a princípio, nos parece um meio bastante eficaz para se compreender uma série de opressões.
Consideramos que esse evento foi um grande avanço, tanto para nosso coletivo quanto para a cena rueira de SP. Apesar da desconfiança mútua inicial e de divergências em relação a determinadas questões, consideramos Leonor uma aliada e esperamos contar com sua presença em nossos rolês futuramente, afinal, estamos juntxs na tarefa de colaborar para que este sistema desmorone.
Antes de terminar, gostaríamos de dizer aos pilantras nazis que deixaram mensagens aqui nos chamando de “bichas”, com a ilusão de nos ofender, que somos muito mais bichas do que vocês são capazes de imaginar. E também mais negrxs, mulheres, sem-teto, defs, faveladxs, putas. Somos muitxs, somos piores que seus piores pesadelos e estamos em todas as partes.
Para quem quiser saber mais sobre as Ludditas Sexxxuales:
http://luddismosexxxual.blogspot.com/
http://luddismosexxxual.tumblr.com/
http://ludditastexxxtuales.blogspot.com/
NOTAS
1O espírito dessa fase pode ser resumido na frase com a qual concluíamos vários documentos da RASH-SP então: Somos muitxs, somos todxs – eles estão sós com seu racismo.
2Exemplos desta colaboração entre quadrilheiros nazifascistas e a polícia não faltam: lembremos só as tentativas policiais de induzir vítimas de agressão na região da rua augusta a não fazer boletim de ocorrência ou as ameaças de bandos fascistas contra estudantes, funcionários e professores da USP durante a greve de 2011.
3Naquela reunião memorável de abril de 2011, que citamos anteriormente, um punk bastante considerado por todxs nós por seu empenho em combater a pilantrada nas ruas afirmou diante de todxs que os ataques homofóbicos que estavam ocorrendo na região da Avenida Paulista naqueles dias tinham destaque na mídia burguesa e seriam investigados pela polícia porque “os gays têm dinheiro”. Essa afirmação falsa e preconceituosa, apesar do mal estar que causou em boa parte dxs participantes, não foi contestada por ninguém naquele momento, apesar de todxs aquelxs antifas anti-homofóbicos e mesmo ativistas heterodissidentes presentes.
4Por outro lado, nossx velhx amigx, figura versada nos aspectos sobrenaturais do ambiente urbano, considerou positiva a escolha do local, sugerindo que nossa reunião ali teria de alguma forma desestabilizado as energias nefastas e fascistizantes que emanam daquele ponto geográfico e se espalham por toda a cidade. Como materialistas dialéticxs, nós do coletivo nos abstemos de opinar a respeito.

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